A febre do Selfie – Jornal Estado de Minas

No último domingo (30/11) dei uma entrevista para o Jornal Estado de Minas para falar sobre o fenômeno do Selfie em redes sociais. A matéria mesclou a experiência em Marketing Digital e o conteúdo da minha monografia em Psicologia (recém aprovada) sobre o Compartilhamento na Internet como construção de identidade do sujeito.

Veja a seguir a matéria completa. 

 

A febre do Selfie (por Lilian Monteiro)

Não se sabe ao certo a data exata da criação do termo. O ano de 2005 fica registrado como o do nascimento da selfie, tendo como autor o fotógrafo, designer e ilustrador americano Jim Krause. O autorretrato, antes postado no MySpace, ganhou outra dimensão com o Facebook. Em 2013, o dicionário Oxford escolheu o termo como a palavra do ano por ter sido a mais procurada. Este ano, a foto tirada no Oscar pelo ator Brandley Cooper, ao lado de várias celebridades de Hollywood, foi a mais visualizada até o momento.

A foto com a câmera frontal dos telefones celulares ou qualquer outro eletrônico virou uma febre, se espalhou e caiu no gosto de milhões de pessoas. O autorretrato em momentos de descontração, divertidos, felizes, emotivos é legal e faz a alegria de quem curte. E não há nenhum problema nisso. Há quem se fotografe para exibir na rede para amigos, familiares ou para o mundo. Ou simplesmente faz a selfie para ter registrado um momento especial. O desejo é guardar a imagem de um instante único, de emoção.

Mas como tudo na vida, há sempre o outro lado: o da falta de limites. Para muitos, se tornou um vício e há quem não passe um dia sem postar sua imagem. Revelar o cotidiano, seja onde for ou onde estiver, é uma necessidade, física até. Um desejo compulsivo. O problema aparece quando não há discernimento ético ou moral com o excesso de exposição. Sem falar que a selfie sem filtro pode prejudicar ou interferir na vida de outras pessoas que têm aversão a esse comportamento. O descontrole chegou ao ponto de selfies sendo tiradas em velórios.

selfie velorio

Nos Estados Unidos, surgiu um movimento protagonizado por noivos e fotógrafos de casamento, chamado ‘Unplugged wedding’ (casamento desconectado), que pede aos convidados para ficar algumas horas longe de seus smartphones e câmeras para curtir a cerimônia e, consequentemente, não interferir no trabalho de profissionais contratados para registrar o evento. Alertas do tipo “Por favor, vamos deixar nossos fotógrafos profissionais serem os únicos paparazzi durante nossa cerimônia…” são cada vez mais comuns.

Tema superatual, os atores Mateus Solano e Miguel Thiré, dirigidos por Marcos Caruso, estão em cartaz no Teatro Miguel Falabella, no Rio de Janeiro, com a comédia Selfie, até janeiro de 2015. Nela, eles discutem as relações que nascem e morrem na internet. Mateus chegou a declarar que “a peça é uma pequena caricatura do que a gente está vivendo. As pessoas esbarram no poste porque estão com a cara no celular”.

O Saúde Plena se propõe a discutir e alertar sobre os dois lados da selfie, o bom e o ruim. A fisioterapeuta Mariana Scoralick- Guiscem Pardini sabe muito bem a medida. Ela curte fazer selfie, mas é avessa ao excesso. “É legal, a foto é essencial e faz parte da vida de todos. Mas é preciso saber o que postar. Gosto dos momentos importantes, o noivado, uma viagem, encontros com amigos e a família. Agora, selfie só minha está no meu celular, só para mim. É pessoal, para registrar o meu momento.”

Momento único e pessoal

A selfie faz parte da vida atual e muitos dela não abrem mão. Sentem-se confortáveis com o autorretrato, curtem, compartilham, mas garantem saber a hora de dar um tempo

Por que as pessoas gostam tanto de tirar fotos de si mesmas? As mulheres curtem mais? Ou os homens seguem a mesma onda? O que tem de tão bacana na cultura da selfie? As irmãs Mariana Scoralick-Guiscem Pardini, fisioterapeuta, e Viviane Scoralick-Guiscem Freriths, advogada, realizaram o sonho de se casar no mesmo dia, uma união dupla nos dias 7, 8 e 9 deste mês, no Arraial do Conto, um resort em Codisburgo, na Região Central de Minas. Ao lado dos respectivos maridos, Rafael Pardini Seixas e Adam Freriths, elas decidiram distribuir câmeras para os convidados registrarem a cerimônia. “Eram câmeras descartáveis, de filme, para que cada um registrasse seu olhar”, diz Mariana. Não era selfie, que, aliás, chegaram a pedir aos mais próximos para evitar, não foi possível controlar.

“Felizmente, contamos com o bom senso. Tínhamos profissionais contratados e tudo deu certo. Aliás, acho que eles é quem têm de lidar com essa situação de etiqueta, de pedir aos convidados para evitar a selfie num determinado momento, para o anfitrião é difícil. Não tivemos do que reclamar, mas já presenciei deselegância por causa de selfie em casamentos e batizados. Não é legal”, conta Mariana.

Viviane é adepta da selfie para ter “o meu momento, individualizado, um registro de como me sinto naquele momento e que quero tê-lo guardado”. E ponto final, ela para por aí. “E depende da situação. Geralmente, é quando me sinto confiante, alegre e, mesmo assim, não faço muito. Acho ruim a exposição, o exagero, o querer inventar fotos, criar imagens diferentes… Acho que fica egoísta e é uma percepção errada essa necessidade de ter de postar foto a todo momento e feliz. Tenho outra leitura a esse respeito. Na verdade, acho que o sinal é de que nem tudo vai bem.” Para a advogada, a selfie não pode entrar no limite do outro. É preciso respeitar o momento, ser prudente e respeitoso. “No nosso casamento não atrapalhou. Tivemos selfies das pessoas que estavam felizes por terem sido convidadas e prestigiadas em nossa cerimônia e decidiram registrar e compartilhar aquela alegria.”

homemITABIRA Desde os 16 anos, Lenílson Lucas de Oliveira, agora com 28, analista, é louco pelo mundo da tecnologia. Portanto, sempre gostou de todas as ferramentas. Ele confessa que nunca curtia tirar foto até surgir o celular. Desde então, não parou mais. Mas ele tem regras. “Depende da situação. Geralmente, são fotos minhas, com amigos ou de paisagens, dos lugares bonitos que descubro na cidade (ele é de Itabira é mora há cinco meses em BH). Dizem que palavras ditas e tempo passado não voltam, logo não vou perder uma oportunidade. Acordei, estou de bom humor e o dia bonito, tiro a foto e posto na hora. Mas tenho cuidado e presto atenção se estou em lugar público ou com mais pessoas, porque não quero me prejudicar nem quem está à minha volta. Não quero ser inconveniente.”

Lenílson enfatiza que as redes sociais e o hábito da selfie, da forma adequada e com respeito, são sensacionais. “Não sou viciado, já fiquei uma, duas semanas sem postar ou compartilhar nada. Moro longe da família e amigos, então as redes nos aproximam. É como se estivessem perto. Eles acompanham o que estou fazendo, descobrindo, é legal.” Usuário e com know-how na área de atuação, ele avisa: “É um meio de comunicação poderoso, mas é preciso ter cabeça para usar. Não é brincadeira”.

TESE Cínthia Oliveira Demaria, dona da Chá de Conteúdo, empresa de marketing digital, jornalista e formanda em psicologia, acaba de defender sua monografia: “Compartilhamento na rede social: Facebook e processos de construção da identidade”. Nela, Cínthia discute o objetivo de compartilhar e o que isso quer dizer. Para ela, é a necessidade de “aproximação e pertencimento”. O lado bacana é a “pessoa se valorizar, autopromover e se reconhecer”. No entanto, ela reconhece que, por outro lado, pode trazer dependência de exibir um lado perfeito o tempo inteiro. “Tem até patologias que a psicologia aos poucos identifica, como a criação de uma projeção de identidade. Há estudos sobre tendência de rejeição, supervalorização da personalidade, criação da dependência e identificação de casos de depressão.”

Para Cínthia, não há um lado negativo. É “meio-termo”, há mais benefícios na verdade. “Sustentar um perfil fake o tempo inteiro é prejudicial. É a sociedade do espetáculo, o querer se mostrar. Mas compartilhar é uma forma de visibilidade e, para quem gosta, é inevitável. Eu uso pessoal e profissionalmente. E vejo como uma forma de, no caso de uma selfie com um amigo, valorizar o outro, mostrar que ele tem importância para você. É um reconhecimento. De novo, é a rede de pertencimento, de dar relevância. Agora, é preciso saber usar.”

O mercado está de olho

Fabricantes de celulares já perceberam que a selfie veio para ficar e, com isso, formou usuários cada vez mais exigentes quanto à qualidade das câmeras frontais. A maior frustração era a baixa resolução oferecida pelos produtos ofertados no mercado, que priorizavam as câmeras traseiras. Mas, na lei da oferta e da procura, isso já mudou. Hoje, de olho nesse cliente, muitos fabricantes potencializam cada lançamento de aparelhos para que o usuário veja com exatidão seu enquadramento e o melhor ângulo para a selfie. Há vários celulares projetados com potência e alta qualidade para quem é viciado na autoimagem. Já é possível ter todos os recursos (tecnologia, alta resolução, flash com luz de LED, aplicativo com modos de realce de fotos faciais, retoque facial automático, modo panorâmico, estabilização ótica da imagem etc.) para caprichar na própria foto.

Para sair bem na selfie

O fotógrafo do Estado de Minas Gladyston Rodrigues dá dicas simples e básicas de como se sair bem na selfie. Anotem aí!
» Um celular de qualidade, com câmara de no mínimo cinco megapixels de resolução
» A melhor distância é o braço esticado e com ângulo de cima para baixo. De frente e próximo ao rosto a imagem vai ficar chapada. Melhor de perfil
» Fique atento à luz, ela precisa ter incidência frontal
» Não esqueça de procurar um fundo bacana e, se for no espelho, tenha cuidado com o que pode aparecer
» Se a selfie for com um grupo, lembre-se de posicionar a galera no segundo plano

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