Mitos modernos e Redes Sociais

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Durante toda a minha trajetória acadêmica, me dediquei a estudar o fenômeno dos ídolos que se tornam mitos eternos nos discursos midiáticos depois que eles morrem. Sim, somente depois me debrucei sobre Redes Sociais para fins profissionais e por acreditar no potencial dessas mídias. Entretanto, estudar celebridades (que também tem tudo a ver com os 15 minutos de fama que buscamos pelo Facebook hoje), foi meu objeto de leituras por um bom tempo, e ainda continua a ser na Psicologia. Afinal, não há como falar sobre o comportamento do consumidor se não levar em conta a sociedade do espetáculo e a promessa de exibicionismo que as marcas tentam promover aos fãs.

Pois bem. A pauta desta semana seria outra, mas fui contactada por vários veículos para falar dos meus estudos de graduação e pós em Comunicação Social acerca do fenômeno Kurt Cobain, ícone da geração grunge de 1990. Estudei sobre a narrativa do cinema na tentativa de passar um olhar subjetivo (e depressivo) dessa personalidade na minha monografia. Na pós graduação, estudei sobre a cobertura da revista Rolling Stone acerca do líder da banda Nirvana. Questões musicais a parte, a persona Cobain criada e midiatizada como porta voz de uma geração me levou a aprofundar no tema por um bom tempo.

Portanto, além de fã do cantor, acho que consigo no mínimo, prestar uma assessoria biográfica e midiática que cercam até hoje, a carreira do músico, que completa em 5/4/2014, 20 anos de falecimento, com suspeita de suicídio (embora existam várias teorias conspiratórias para contradizer).

Recentemente, me vi pensando: e se o Kurt Cobain morresse hoje, numa sociedade que atualiza notícias em tempo incontrolável aos olhos humanos? Será que ele teria um perfil no Facebook ou Twitter (digo ele próprio, e não fãs clubes que já o homenageiam). E se os pensamentos suicidas do cantor fossem publicados na rede? Se já naquela época ele não tinha privacidade e era interpretado de mil maneiras pelas mídias tradicionais, imagina hoje? Sem dúvida alguma, o mapa traçado pela Courtney Love para encontrar o avião da Malásia (e viralizado de forma irônica na rede) seria a grande culpada (ainda mais) pela morte do cantor. Mas o objetivo não é esse que proponho nesse texto. O objetivo é discutir os mitos modernos na era de informações em fim.

Numa avalanche de informações, como fica o papel dos mitos modernos? Será que ainda existirão grandes mitos a serem lembrados por várias décadas? Em 1990 havia uma identificação com o cara da TV, mas hoje, eu quero (e posso) ser o cara da TV. O último caso narrado nas redes foi Michael Jackson, que alterou em questão de segundos, todas as fotos de perfis nas Mídias Sociais. Mas hoje, conseguimos vivenciar o luto muito mais de perto. São raras as famílias que tiram do ar perfis de pessoas que já morreram.

Os sentimentos estão cada vez mais passageiros. Não há tempo a perder. Um assunto midiático, inclusive uma morte, é comentado por no máximo uma semana na internet. Se passar disso, já fica velho, já tem outras pessoas morrendo e outras coisas acontecendo. O caso só volta a ter notoriedade se tiver uma super revelação a ser feita.

Portanto, não é caso de dizer que não haverão mais mitos a serem lembrados por todo o sempre, mas sim, contextualizar as mortes. Por isso não se vê mais grandes mitos. Hoje é difícil idolatrar alguém/algo por um bom tempo, sem não admirar a vida de mais 200 pessoas na rede. Isso é ruim? Não necessariamente. São outros tempos, outras mídias e a preocupação maior é a necessidade infinita de se manter atualizado.

Fecho sem conclusão, mas provoco uma reflexão: os mitos são frutos do contexto ou são originários da necessidade humana de ter um totem (a quem idolatrar)? A competitividade pela atenção do público fica, para nós, profissionais, ainda mais clara a ideia de que precisamos de fãs, não de consumidores.

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