“Eu não diria que a internet fortalece/enfraquece identidades, mas ela as transforma”, conclui psicóloga em pesquisa com adolescentes em redes virtuais

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Essa foi a proposta da pesquisa realizada pelas psicólogas e professoras Márcia Stengel e Valéria Freire de Andrade. O estudo concluído em 2011 pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas) teve como objetivo principal, comparar as possibilidades e limitações do uso da rede nas distintas camadas sociais para o estabelecimento e manutenção de relações de amizade e companheirismo, bem como investigar as possibilidades de interpenetrações entre as diferentes classes sociais que a rede oferece, ou não.

Os questionários foram aplicados em escolas das redes pública e particular de Belo Horizonte. “Decidiu-se pela realização em escolas devido ao público-alvo da pesquisa ser composto por adolescentes entre 14 e 18 anos de idade, público este com larga inserção no espaço escolar”, relatou uma das pesquisadoras. Foram selecionadas três escolas da rede pública das regionais Sul, Norte e Nordeste de Belo Horizonte com a intenção de abrangermos regionais distintas da cidade, considerando que teríamos uma diversidade entre uma escola e outra. Também foi selecionada uma escola da rede pública que se localiza na regional centro-sul da cidade, que tem estudantes de camadas sociais mais diversificadas, ou seja, que contempla as camadas populares e médias.

Entre as escolas da rede particular, foram selecionadas duas escolas, que se localizam nas regionais centro-sul. A aplicação dos questionários foi de forma coletiva em alunos de turmas pré-selecionadas que estivessem dentro da faixa etária definida na pesquisa. No total foram aplicados 315 questionários.

Para conhecer os resultados obtidos, conversei com a pesquisadora, psicóloga, Doutora em Ciências Sociais – UERJ e Professora do Programa de Pós-graduação de Psicologia e da Faculdade de Psicologia da PUC Minas, Márcia Stengel.

Qual rede é a mais presente entre os pesquisados?

O Facebook entre os jovens das camadas médias e o Orkut entre os das camadas baixas. Entretanto, havia um número grande de jovens das camadas baixas que já estavam também no Facebook. Acredito que se fizéssemos a pergunta hoje, talvez o Facebook seria o mais presente entre as duas camadas.

Que tipo de relacionamento eles conseguiam estabelecer na rede?

Nosso interesse era saber principalmente se eles se relacionavam com pessoas de grupos e/ou classe social distintos dos deles. A conclusão foi que não ou praticamente nada. A maioria dos amigos das redes é composta por amigos da vida presencial, de familiares e de amigos dos amigos, nesta ordem.

Foi possível perceber laços que criados exclusivamente no ambiente virtual?

Não. Alguns mencionaram que mantinham contato com pessoas que eles haviam conhecido nas redes, mas foi em número pequeno.

O que você acredita ser o maior estímulo para esses jovens permanecerem online?

O espaço online é hoje um grande espaço de sociabilidade entre jovens. É ali que eles se “encontram”, conversam, trocam informações, marcam encontros e festas. A internet também é um espaço no qual eles buscam informações das mais diversas, além de ser um espaço lúdico, através, por exemplo, dos jogos.

A pesquisa fala sobre adolescência e criação de identidade. De que maneira a internet enfraquece/fortalece essa construção?

Eu não diria que a internet fortalece/enfraquece identidades, mas ela as transforma. A identidade é um processo dinâmico, em que nossas vivências vão transformando-a, alterando-a.O que se espera é que os sujeitos tenham uma identidade bem estabelecida, ou seja, com a percepção de que, mesmo em situações distintas, com pessoas diferentes, eles são os mesmos, têm uma mesma identidade, mesmo que ela possa ser percebida de modos diversos. Há uma discussão se hoje não teríamos múltiplas identidades. Fico pensando se não é mais uma questão de uma identidade que é múltipla, contraditória, complexa, que se apresenta distintamente dependendo da circunstância e não muitas identidades. E a adolescência é um momento de construção de uma identidade adulta e mais estável, mas não fixa.

Há diferença na formação de rede social virtual ou presencial, na sua opinião? Quais?

Em princípio, a rede virtual permite um leque maior de pessoas por suas próprias características. Entretanto, o que vimos na nossa pesquisa é que há poucas diferenças para os nossos adolescentes pesquisados entre uma e outra. Vejo, de modo geral, que a rede virtual ela vai pouco além da presencial, ela agrega mais gente, mas que não significa que haja um relacionamento com várias delas. Até porque as redes, pelo menos o Facebook, tem ferramentas que fazem com que possamos ter relações distintas com pessoas escolhidas. Assim, para a maioria das pessoas, a meu ver, o número grande de amigos nas redes virtuais não significa estabelecimento de relações, intimidade, troca de informações com todos eles, mas muitos são apenas para fazer número. 

Tem mais alguma informação importante que foi apurada que você gostaria de ressaltar?

É preciso pesquisar mais sobre a temática para compreendermos essa novidade que “invadiu” nossas vidas.

 

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